21 de fevereiro de 2012

Luiz Werneck Vianna. A revolução passiva. Iberismo e americanismo no Brasil.

Gente bonita, gente inteligente.
Tenho tratado vez e outra, entre um assunto e outro sobre o fato de que Brasil "nunca houve, de fato, uma revolução, e, no entanto, fala-se dela". O que houve, segundo Werneck é uma "revolução passiva". Trata-se de revoluções "sem sujeitos". Localizei um artigo interessante e de clara compreensão sobre o assunto. Segue como dica. Abraço. Robson.

Luiz Werneck Vianna. A revolução passiva. Iberismo e americanismo no Brasil. Rio de Janeiro: Revan, 1997.

     Não há como fugir da constatação de que a atual fase de mudanças aceleradas, precisamente por revirar os fundamentos mesmos da vida contemporânea, suspende a possibilidade de se colocar em curso uma revolução propriamente dita, isto é, um processo firme de rupturas políticas conscientemente orientadas. 
    “Não se vive mais o tempo das revoluções”, observa o cientista político Luiz Werneck Vianna em A revolução passiva. Iberismo e americanismo no Brasil. A decadência “heurística” da revolução está associada tanto aos vários aspectos da “globalização”, quanto aos efeitos “do assemelhamento universal e do esvaziamento da categoria trabalho como variável sociológica explicativa dos processos sociais”. O vigor das mudanças parece provir mais dos “fatos” do que de decisões políticas, com os processos assumindo a forma e o ritmo de verdadeiras “revoluções passivas”: não há grandes rupturas, mas a modernização capitalista avança sem cessar.
     Não é que os operadores políticos tenham feito uma opção pelo “reformismo”. Trata-se bem mais de uma “imposição” da realidade. Algo que põe no mínimo uma questão: a força avassaladora dos processos objetivos estaria trazendo consigo a “morte” dos sujeitos? Ou, ao contrário, estaria promovendo a transfiguração dos protagonistas da movimentação social? Dizendo de outro modo: estaríamos assistindo à substituição das classes, com seus partidos e seu protagonismo abrangente, pelos grupos de interesses corporativamente posicionados em torno de questões de “novo tipo” (direitos, benefícios, serviços públicos)? 
     A questão diz respeito à interpretação da época atual e à definição dos termos e instrumentos com os quais se faz política. O reconhecimento de que vivemos uma época de “revoluções passivas” é acima de tudo um critério de interpretação, com o qual os atores interessados na mudança podem delinear uma estratégia de intervenção e de luta hegemônica mais consistente, baseada na inteligência metódica das “guerras de posição e não na virulência das explosões populares.
     A mesma perspectiva, porém, converte-se em programa de ação quando manuseada por elites conservadoras. Da constatação de que vivemos hoje sob o império das imposições coercitivas da “globalização” capitalista não seria difícil, por exemplo, extrair um programa político dedicado a materializar a idéia de que tudo ficaria facilitado se, ao invés de resistir, buscássemos nos acomodar aos fatos. Exageros retóricos à parte, é o que fazem os arautos da “grande transformação” em curso: para eles, existiriam apenas pequenos interesses se superpondo à falência dos grandes interesses (nacionais ou de classe), num quadro em que faltam condições objetivas para projetos políticos fortes. Donde não se justificar, dizem, oposições ao “novo”: as tentativas de defender direitos “passados”, as organizações e ideologias alternativas, assim como as atitudes de inconformismo e rebeldia, seriam no mínimo pouco legítimas. Bloqueariam a plena fruição das vantagens de um ajuste corajoso e acelerado.
     No bojo desse programa político estrutura-se um plano inconfesso: mudemos o mundo tão depressa quanto possível, mas conservemos o fundamento mesmo da ordem pretérita — a exclusão social, a democracia minimalista, a oposição inofensiva, o domínio do grande capital, o individualismo. Em suma: façamos a revolução passiva, enclausurando a história num círculo de chumbo.
    Mas a “morte” dos grandes atores classistas não representa o cancelamento da subjetividade política. A questão dos sujeitos, do conflito e da contestação ressurge incessantemente, alimentada pelos próprios “fatos” atuais: a crise social, o desemprego, a democratização do acesso a informações e serviços, as multidões multiplicadas, a luta por direitos. Embora esteja suspensa a possibilidade da revolução, encontra-se mais acesa do que nunca a disputa para saber quem se capacitará para comandar e orientar os processos de transformação. Da própria realidade material emergem as condições para a reposição de velhos protagonistas e a plena maturação de personagens novos.     
     De modo tão forte e inusitado que se cria mesmo a imagem de uma sociedade civil hiperativa, espaço gerador de formas de organização societal capazes de desempenhar funções eminentemente estatais, isto é, de “substituir” o Estado em áreas nas quais ele falha ou não se mostra competente. 
     Resta evidentemente a questão de saber como impedir que essa nova situação crie uma espécie de selvagem “sociolatria” oposta à velha “estatolatria” de antes. A questão de saber, em suma, como politizar e unificar a sociedade civil, pensá-la como algo fundido à economia, à política e ao Estado, como espaço adequado para que atores efetivamente qualificados superem a prevalência dos particularismos e se ponham como intérpretes de interesses gerais. Descobrir como isso poderá se dar no contexto atual — no qual estão gravemente dificultadas as agregações superiores — é o grande desafio dos cientistas sociais de hoje.
     Desafio a que já se pôs a responder Luiz Werneck Vianna, um de seus principais representantes no Brasil. Seu belo A revolução passiva, que acaba de ser premiado pela Biblioteca Nacional como melhor livro de 1997 na categoria “ensaio social”, é uma prova de que o pensamento crítico continua vivíssimo. Com menos facilidades do que antes, é verdade, mas com a mesma contundência e criatividade que sempre o distinguiu.
----------
Marco Aurélio Nogueira é professor de Teoria Política da Unesp/Araraquara.


Fonte: Jornal da Tarde, São Paulo, 24 dez. 1997.

17 de fevereiro de 2012

Eleições municipais no Brasil

"É claro que as eleições municipais guardam relações com pleitos estaduais e nacionais. A lógica política tem uma integração que não pode ser desprezada. Mas devemos considerar que existem características que permitem dizer que eleição municipal tem vida própria. Alguns argumentos reforçam essa observação. Devemos destacar o contingente aproximado de 400 mil candidatos que disputam cerca de 70 mil postos de vereador, prefeito e vice-prefeito nas mais de 5,5 mil cidades brasileiras. O mosaico de atitudes e ideias molda de forma expressiva parte relevante do que podemos chamar de cultura política brasileira. Nesse cenário, precisamos lembrar que na imensa maioria das cidades as prefeituras são eleitas em turno único – segundo turno só ocorre em cidades com mais de 200 mil eleitores. Essa característica reforça a tese da Ciência Política de bipolarização, ou seja, duas forças disputam o poder local. O fato é verdadeiro em mais de 80% das cidades, onde os dois primeiros colocados ficam com mais de 80% dos votos, e em metade delas, onde a disputa ocorre efetivamente com até dois candidatos. A pergunta então é: como acomodar tantos partidos em duas candidaturas (em 2012 serão 29)? Em 2008, uma média de 11 partidos disputaram as eleições municipais em cada cidade brasileira. Esperamos como resultado disso as mais diversas coligações. E nesse ponto devemos estar atentos: todos os cruzamentos partidários são possíveis. PT e PSDB, por exemplo, estiveram juntos em mais de 1.000 cidades em 2008. A surpresa, nesse caso, fica reservada àqueles que prestam pouca atenção à complexidade nacional das eleições locais. As executivas nacionais das legendas conseguem controlar poucas cidades, e em muitas delas, os desejos pontuais se sobressaem aos interesses mais amplos. Olhar para o conjunto de municípios é um desafio que a Ciência Política está aprimorando, e as descobertas mostram que existem aspectos peculiares a essas realidades."

Humberto Dantas – Doutor em Ciência Política

9 de março de 2011

OS PARTIDOS POLÍTICOS E A PARTICIPAÇÃO POPULAR



O Surgimento dos Partidos Políticos e a Manifestação Popular  

Por Robson Antinhani 

Se a atividade política é muito antiga e nasce praticamente com a civilização, porque os partidos políticos surgem apenas na modernidade?

Para responder esta questão, é necessário refletir um pouco sobre as condições da sociedade na Idade Média.

Nesse período a sociedade era dirigida pela igreja e pela nobreza. Nessas condições o povo não era solicitado a participar ativamente da vida política bem como, da vida cotidiana do poder.

Na situação em que o povo encontra-se distante do poder não é preciso uma instituição como partido político. As instituições surgem para solucionar problemas que são colocados pela própria sociedade, pelo próprio homem. O partido político surge quando o problema da relação entre o povo e o Estado aparece.

Com o advento da modernidade surge então esta questão da participação política do povo, ou seja, para o ideário moderno o povo é a fonte legítima do poder e o governo deve exercer o poder a favor do povo e do interesse comum.

Trata-se nesse momento de organizar o povo e de possibilitar sua manifestação, de maneira que as classes populares, o conjunto da população e os cidadãos apresentem quais são seus interesses, julguem os governantes, enfim, possam ter voz, atuar e conferir a legitimidade ao poder que está sendo exercido.

Cabe ressaltar que, a modernidade tem seu início justamente com a manifestação popular nas ruas em uma aliança entre a classe burguesa e as classes populares impulsionam as transformações radicais do mundo feudal, do mundo comandado pela aristocracia. Um exemplo importante é a tomada da Bastilha em 14 de julho de 1789 na França. Neste episódio as classes populares junto à burguesia reivindicaram ao Estado sua participação mudando assim a história da França e contribuindo para a construção da democracia.

Os partidos surgem então para preencher esta tarefa da mediação e relação entre o Estado e a sociedade, entre as classes populares e a ação governamental. Pode-se então classificar o partido como sendo uma instituição mediadora. Qual seria então a importância desta função do partido? Porque o partido deve cumprir esse papel de mediador entre diversas classes sociais e o governo?

Veja texto na íntegra em: Docência/2º Ano do Ensino Médio

6 de março de 2011

S O C IA L I ZA ND O Idéias......

Caro aluno, este espaço é para que você possa se manifestar sobre diversos assuntos que você queira tratar.
Aproveite para perceber os demais "pontos de vista" de seus colegas e dialogue com eles!

Fiquem à vontade.

Abraço.

5 de fevereiro de 2011

DEMOCRACIA

DEMOCRACIA LIBERAL – Texto elaborado para orientação de aulas do 2º Ano do Ensino Médio
*Por Robson Antinhani

Para que possamos entender um pouco mais sobre Democracia e alguns de seus conceitos, iremos tratar inicialmente de algumas das distintas concepções sobre a relação entre cidadão e Estado bem como, poder do povo e suas possíveis representações para a constituição de uma sociedade democrática.
A princípio trataremos a idéia de “massas” como não sendo um conjunto de cidadãos cientes dos seus direitos, cientes das suas responsabilidades e que pressionam o governo para o bom andamento da sociedade. A massa neste contexto é geralmente desinformada, tem baixo nível de educação e possui dificuldades em perceber o jogo político.

Os governos autoritários e/ou totalitários se aproveitam desses elementos para exercer um poder direto sobre a massa e sobre o restante da sociedade. Muitas vezes esses governos ditos populistas aparecem como o “Pai do Povo” e são queridos pela população, no entanto, normalmente não realizam um governo de direitos e de cidadania, não exercem um governo democrático, ainda que queiram ser reconhecidos como tais.

Vale lembrar que, governos com características autoritárias e/ou totalitárias que estabelecem relação direta com a massa popular sobrepondo-se às instituições políticas de dada sociedade/Estado em busca pelo referendo da sua ação, não podem ser considerados governos democráticos.

Na história recente do Brasil, tivemos o exemplo de Getúlio Vargas (1882-1954), um estadista com grande habilidade em se relacionar diretamente com as massas, de estabelecer um diálogo com o povo e tentar esclarecer seus princípios democráticos como sendo de “bem feitor da sociedade”. Ainda hoje muitas pessoas têm a impressão de Getúlio Vargas como um bom estadista, como o “Pai dos Pobres” – Trata-se, no entanto, de um Populismo autoritário, de perseguição aos inimigos, passando a impressão de um governo democrático.

Caro aluno, leia o texto na íntegra na coluna lateral em Docência/2º Ano do Ensino Médio. Atente-se também a questão para orientação  e discussão da próxima aula.

23 de março de 2010

Desconstruindo verdades, descobrindo Sociologia

Compreender as características das sociedades capitalistas tem sido a preocupação da Sociologia desde o início da sua consolidação como ciência da sociedade no final do século XIX. Nesse período, o capitalismo se configurava como uma nova forma de organização da sociedade caracterizada por novas relações de trabalho. Essas mudanças levaram os pensadores da sociedade da época a indagações e à elaboração de teorias explicativas dessa dinâmica social, sob diferentes olhares e posicionamentos políticos. Desde então, essa tem sido a principal preocupação dessa ciência, qual seja, entender, explicar e questionar os mecanismos de produção, organização, domínio, controle e poder, institucionalizados ou não, que resultam em relações sociais de maior ou menor exploração ou igualdade.

A sociedade globalizada assumiu tamanha complexidade e mostra-se por meios de tão diversas faces que tornou-se impossível à ciência sociológica, ou mesmo à qualquer outra ciência, responder ou explicar a toda problemática social que se apresenta hoje, sem correr o risco de cair em simplificações banais.

É preciso termos humildade para perceber que a amplitude das transformações sociais, políticas, culturais, econômicas e ecológicas que a sociedade e o planeta estão vivendo, não nos permite explicações estreitas ou sectárias, com pretensões de apropriar-se da verdade.

Por outro lado, pensamos que a complexidade e a amplitude que caracterizam as sociedades contemporâneas, também não devem nos intimidar ou amedrontar, mas sim, nos desafiar para o estudo, para a pesquisa e para uma melhor compreensão e atuação política no mundo em que vivemos.